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Vícios: de onde surgem, e como podemos vencer?

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Lidar com vícios, na própria vida ou na de alguém querido, é sempre um desafio. O caminho exige cuidado e paciência para encontrar as pequenas vitórias, e transformá-las em conquistas ainda maiores.

É possível acelerar o processo se nos dedicarmos a entender o que são vícios, porque eles acontecem e o que uma pessoa precisa quando está passando por essa situação. Pensando nisso, eu preparei um guia para te ajudar a conhecer melhor os vícios, suas origens e, principalmente, a melhor forma de enfrentá-los!

O que são vícios, e de onde eles surgem?

Você já deve ter escutado que todo excesso esconde uma falta. Apesar de nos colocar no caminho certo para entender os vícios, esta frase ainda é um pouco superficial, e não explica por inteiro a dinâmica que leva até eles.

Para começar, é preciso reconhecer que toda pessoa tem necessidades primárias, muitas vezes inconscientes. Estas necessidades são causadas por algum tipo de dor, ou trauma, que surgiu nos primeiros momentos da nossa vida, e contra a qual erguemos vários tipos de defesas psicológicas.

Se você já conhece a teoria dos traços de caráter, sabe muito bem do que eu estou falando, mas caso ainda não conheça, pode deixar que logo logo eu vou mostrar a relação entre ela e os vícios.

Dores e vícios

As dores por trás das necessidades primárias são causadas por sensações como abandono, humilhação ou traição. Emoções fortes e desgastantes, que a todo custo desejamos evitar. Algumas pessoas entendem e lidam de forma positiva com as próprias dores e necessidades. Elas alcançam uma vida saudável, conduzida pelos sonhos, e não pelos traumas.

Outras – talvez a maioria – não encontra em si mesma os recursos para isso, e acaba buscando todo tipo de comportamento nocivo para afastar a dor. Surgem, assim, problemas não só com os vícios, mas também com a dependência emocional, procrastinação, relacionamentos abusivos, e até mesmo doenças de vários tipos.

Os recursos dos quais eu estou falando também são emoções – confiança em si mesmo, autonomia, resiliência, um olhar positivo para o mundo. Pessoas com essas características, ainda que não estejam livres de problemas, se tornam capazes de lidar com eles e sair ainda mais fortes. Elas podem até “flertar” com os vícios por algum tempo, mas percebem como sua vida está sendo prejudicada, decidem controlar melhor os próprios comportamentos, e assim o fazem.

Aqui, inclusive, podemos traçar uma boa definição sobre o que são vícios, para entender se aquela mania está sob controle, ou já passou dos limites. O vício acontece quando falhamos em alguma das etapas acima – não percebemos o comportamento problemático, não decidimos parar com ele, ou não conseguimos manter esse compromisso, quando ele é feito.

Os vícios e os traços de caráter

Os traços de caráter são forças que moldam a personalidade de cada pessoa. Eles se desenvolvem desde a gestação até os primeiros anos, e interagem com o mundo para formar a nossa identidade. Podemos ver, por exemplo, que algumas pessoas são mais tímidas e outras mais abertas, algumas quase não demonstram suas emoções e outras choram por tudo.

Estes são apenas alguns dos muitos comportamentos influenciados pelos traços, e os vícios também entram aqui. Cada traço cria uma dor, como eu já disse. Você pode entender melhor esse processo e qual é a dor de cada um nos artigos abaixo:

Cinco Traços de Caráter:

A dor básica de um traço, na percepção dele, é a pior experiência possível. Quando ela volta a acontecer, cria insegurança e ansiedade, fazendo com que os traços tenham duas opções: se fortalecer para atravessar a situação, ou fugir para não ter de lidar com ela.

O traço esquizoide, por exemplo, é o primeiro a se formar, nos momentos finais da gestação, quando o bebê já consegue sentir a textura e o calor do útero. O “sentir” pode causar ansiedade, caso a mãe passe por experiências negativas que deixem o útero mais frio e desconfortável.

Esse bebê entende que o mundo é perigoso, como se não houvesse espaço para ele existir, e surge a dor da rejeição. Para não ser rejeitado, o indivíduo com um traço esquizoide forte pode ceder com mais facilidade à pressão dos amigos para ter outros comportamentos de risco. Usar drogas, dirigir em alta velocidade ou fazer sexo desprotegido são alguns exemplos.

O traço masoquista, por outro lado, é um dos últimos a se formar, e tem como dor central a humilhação. Ela surge quando a criança, por volta dos 2 a 4 anos, passa pelo desfralde antes de seu corpo estar pronto para isso, e vive “acidentes” que sujam as roupas. Se as pessoas lidarem de forma negativa com essa fase, ela se sentirá humilhada, carregando o traço pela vida.

Já adulta, ela sentirá que precisa guardar as emoções para não ser humilhada novamente, e passa a viver com a soma do estresse pelo que dá errado e do estresse por não poder compartilhar esse peso. Os vícios dela quase sempre serão solitários – apostas, uma caixa de cigarro escondida, jogos eletrônicos, e assim por diante.

Confira mais alguns pontos sobre a relação de cada traço com os vícios:

Esquizoide

Além dos vícios que o ajudam a socializar, como já mencionamos, também é suscetível a hábitos que o permitam escapar da realidade. Se o mundo real é ameaçador e o rejeita, uma saída é criar ou viver em mundos imaginários, como jogos virtuais ou assistir vídeos, filmes e séries de forma descontrolada.

Esse desejo também pode influenciar o vício em bebidas e drogas. Além do fator óbvio, com as substâncias alterando sua percepção, o traço esquizoide muitas vezes sente que será aceito ao mostrar uma nova realidade aos amigos. Ele acredita que está sendo mais divertido ou amigável, por exemplo, e que as outras pessoas gostam mais dessa versão.

Oral

Pessoas com o traço oral muito forte são comunicativas e adoram estar acompanhadas.

Isso pode ser incrível, gerando amizade, paixões e amores que trarão felicidade e serão sua companhia para explorar o mundo, mas também pode se tornar um problema que conduz à dependência emocional. Nesse caso, o objeto do vício será outra(s) pessoa(s), por quem o traço oral se afasta da própria vida.

O traço oral também possui uma ligação muito forte com a boca, porque quando ele se forma, ela é a nossa maior fonte de experiências. Nos primeiros meses de vida, o bebê mama e chora, recebe chupeta e mamadeira, coloca os brinquedos, as mãos e os pés na boca.

Dessa forma, estar com a boca ocupada é uma forma de reduzir a ansiedade e o estresse, fazendo com que o traço oral seja muito propenso a vícios como bebida e cigarros, compulsão alimentar ou roer as unhas.

Outro elemento importante nesse traço é que ele se forma quando as necessidades do bebê não são satisfeitas. Ele chora, mas os pais não sabem o que o bebê está pedindo, ou precisam se livrar de outra tarefa antes de atendê-lo.

Isso leva o traço oral a se ver como vítima das situações. Ele tem a ideia de que o mundo deveria trazer algo desejado, e quando isso não acontece, é hora de chorar. O choro pode ser real, com lágrimas e tudo, ou sair de uma forma simbólica, com reclamações e expectativas frustradas. Nos dois casos, o objetivo é o mesmo: esperar que o mundo satisfaça seu desejo.

Psicopata

O traço psicopata surge conforme a criança sente que é manipulada pelos adultos. Isso pode ser literal, como quando os pais a colocam no cercadinho, ou simbólico, por meio de regras, punições, e até mesmo de acordos que não fazem sentido para ela.

A saída é encontrar suas próprias formas de manipular, com as pequenas mentiras que toda criança experimenta, por exemplo. Na vida adulta, esse traço pode ser usado para liderar equipes entregando o que cada pessoa deseja.

Quando está na dor, no entanto, o traço psicopata pode se tornar viciado em domínio. Ele quer ter o controle das situações e das pessoas, beirando uma neurose nesse sentido. Se a realidade foge muito aos seus planos, chega a deixar o caminho das negociações de lado e encontrar meios de pressionar os outros numa direção.

As mentiras também encontram seu lugar na mente do traço psicopata que vive na dor. Ele vai ostentar o que não tem, e prometer o que não pode entregar, se isso ajudar em seus objetivos. O comportamento é ainda mais comum se a pessoa também possui um traço rígido forte. Ele tem como característica o desejo de ser a primeira opção nas situações, então pode mentir para conquistar seu espaço.

O vício em apostas é outra possibilidade, pois as recompensas podem sustentar a fachada criada pelas mentiras. Ele pode ser de forma óbvia, com os jogos, ou de maneira mais sutil, com movimentos arriscados em sua carreira ou à frente de uma empresa, por exemplo.

Masoquista

Como vimos, é uma pessoa que pode ter vícios em segredo, e será muito difícil pedir ajuda para lidar com a situação. Além disso, o medo da humilhação faz com que o traço masoquista também seja vulnerável à dependência emocional, fazendo milhões de favores para mostrar ao mundo que está tudo bem em sua própria vida.

Quando está a beira de explodir e precisa falar, pode recorrer às bebidas e drogas como uma válvula de escape. Dessa forma, ele põe num elemento externo a culpa pelo que disse ou fez, e alivia a responsabilidade emocional por ter agido assim.

Outra possibilidade para esse traço é o vício no trabalho. Ainda pela dor da humilhação, ele procura fazer tudo muito bem feito, seguindo regras e métodos à perfeição. Isso pode ser uma fonte de orgulho, mas também pode se tornar uma pressão tão grande que chega a resultar em casos de burnout e fibromialgia.

Rígido

Aqui, a maior dor é a da troca, ou da traição, e tentando evitá-la o traço rígido faz de tudo para ser o melhor. É uma pessoa competitiva, não no mau sentido, mas no de alguém que deseja se superar, nos estudos, no trabalho, nos relacionamentos. Parece algo bom, no entanto existe um limite que o rígido muitas vezes acaba cruzando, tornando o saudável doentio e transformando seus hábitos em vícios.

De fora, eles parecem comportamentos saudáveis – dedicação ao trabalho, estudar mais do que os colegas, passar horas na academia. Em sua própria mente, no entanto, a pessoa que vive a dor do traço rígido sabe que está sendo motivada pela insegurança e caindo num vício por controle.

Outra disfunção criada por essa visão de mundo é a compulsão estética – de “produtinhos” a cirurgias – buscando se encaixar no ideal de perfeição que a própria pessoa criou.

É uma linha delicada, que cada indivíduo tem de traçar por conta própria: no fim das contas, só quem está vivendo é capaz de avaliar se as próprias atitudes estão lhe fazendo bem ou mal. Caso perceba que está indo longe demais, sempre será possível deslocar toda essa energia para relacionamentos ou projetos que tragam mais satisfação pessoal.

Atenção!

Quando falamos sobre os traços de caráter, principalmente em relação aos seus aspectos mais desafiadores, a ideia nunca é limitar alguém por meio de caixinhas. Nenhum traço – na verdade, nenhuma pessoa – tem propriedade sobre alguns vícios, ou é imune aos demais. Você pode ser alguém de traço oral que vê nos exercícios uma forma de criar e manter suas relações, ou uma pessoa com traço rígido que bebe para aliviar o estresse que põe sobre si mesma, por exemplo.

A ideia é chamar atenção para algumas situações comuns, mas você terá de considerar como isso se encaixa na sua própria vida. É sempre uma boa ideia contar com processos como a análise corporal, por exemplo, para entender os seus traços e como eles estão contribuindo de formas positivas ou negativas para o que acontece com você.

Cuidado ao julgar os vícios

Quando falamos sobre vícios e comportamentos nocivos em geral, é importante ter clareza sobre os nossos limites em relação ao outro. A função de aprender sobre o assunto não é sair por aí traçando linhas para o comportamento alheio, pois o que para você é um vício para a outra pessoa pode ser uma atitude normal e agradável.

Cada um segura a régua da própria vida, nesse sentido. É lógico que, em alguns casos, temos o desejo positivo de ajudar, e está evidente que a outra pessoa não tem mais controle sobre o próprio comportamento, entrando na categoria do vício.

Quando isso ocorre, é fundamental acolher e tentar mostrar o que está errado de forma a guiar, não a limitar, os comportamentos de alguém amado.

Tenha em mente que, se você tenta mudar alguém pela força ou ameaça, é muito provável que esteja apenas criando ainda mais motivos para essa pessoa se isolar e sentir-se mal. Quando isso ocorre, ela vai em busca da satisfação imediata – drogas, jogos, alimentação compulsiva, entre tantos outros tipos de vícios.

E atenção: ler uma descrição que parece com alguém não faz você entender essa pessoa. Não chegue até ela dizendo que agora você sabe por que ela bebe, por exemplo. Sentar-se de forma aberta, para ouvir antes de dar respostas, é sempre a melhor opção!

Se, considerando tudo isso, você acha que precisa ajudar alguém mas não sabe como abordar essa pessoa, confira o meu artigo especial sobre como lidar com esse tipo de situação:

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